Enlutar
Fazemos pequenos lutos com uma frequência quase diária. Digo pequenos, mas não necessariamente sentidos de tal forma.
Peguei-me pensando no luto que realizamos quando fazemos uma escolha. Talvez essa afirmação cause um estranhamento quando escutada pela primeira vez.
Ora, escolha não diz respeito a optar por um caminho, exercendo nossa liberdade? Sim, é sobre isso também. Entretanto, há um outro lado sutil dessa experiência. Ele está relacionado ao custo, simbólico, que bancamos ao escolher. Escolher uma rota é também não escolher uma segunda, uma terceira e assim por diante. E por essas rotas não escolhidas, nós enlutamos.
Quantas vezes me deparei no setting terapêutico com esse tipo de vivência: escolher permanecer em uma relação afetiva ou encerrá-la, escolher reestruturar a vida profissional ou ficar onde já é conhecido, estável, escolher atender às expectativas outras que, diga-se de passagem, muitas vezes supomos que existem sobre nós, ou trilhar um caminho que nos faça mais sentido.
O enlutar atravessa a experiência de estar vivo, faz parte do processo. Mas é preciso se permitir sentir a dimensão da perda, seja qual for sua magnitude. Permitir sentir não significa apenas sofrer, mas também estar em contato com o que nosso mundo interno nos comunica. E essa trilha não precisa ser percorrida de forma solitária. É possível compartilhar com quem esteja disposto a ouvir.



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