Travessia

Atualizado: há 4 dias
Há relatos que ficam conosco por muito tempo. Em um atendimento, uma paciente que havia perdido o marido disse-me que se sentia à beira de um precipício e que precisava atravessá-lo. Uma fala potente e da qual nunca me esqueci. Peço licença poética para me apropriar dela.
Deparamo-nos com uma perda e, consequentemente, com um luto quando algo se rompe. Esse rompimento não é só por uma vida que se encerra, mas sempre que há a ruptura de algo que até então vinha se mantendo: uma relação afetiva, um projeto de vida, um ideal de nós mesmos.
Talvez a perda doa porque nos marca, quase como que dividindo entre um antes e um depois. Além disso, vemo-nos diante do desafio de atravessar o tal abismo, que me parece uma metáfora acertada para descrever o trabalho, o processo de luto. Penso que dói não só pelo que foi perdido e pela insistência com que essas lembranças voltam, mas também pela parte nossa que se foi com aquele (a) ou aquilo que se foi.
Resta a tarefa bastante complexa de reorganizar nossa vida a partir daquela ruptura e encontrar uma forma de sustentar a vida mesmo na ausência.
Algumas das referências teóricas e literárias das quais mais gosto sugerem que do luto pode vir algo novo, um novo investimento na vida, e sinto que essa ideia tem algum sentido. Que possamos transformar nossos incômodos em algo precioso e, por que não, bonito. Algumas travessias tornam-se mais possíveis quando encontram um lugar de escuta e podem ser compartilhadas.



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